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Cultura Popular no Horizontes Musicais

13 de setembro de 2013

Grupo Cupuaçu, precursor de festa tradicional no Morro do Querosene, e Banda de Pífanos de Caruaru, criada à época do cangaceiro Lampião, se apresentaram no projeto

No mês de agosto, a programação da série de concertos didáticos Horizontes Musicais abriu espaço para manifestações de cultura popular que possuem forte ligação com a identidade nacional. O Grupo Cupuaçu e a Banda de Pífanos de Caruaru foram os dois grupos que comandaram as festas, ambas realizadas no polo Brooklin para um público de aproximadamente 100 pessoas.

O mestre Tião Carvalho, líder do Grupo Cupuaçu, um dos precursores do Bumba-meu-boi no morro do Querosene, zona oeste de São Paulo, afirma que essa festa é “uma manifestação popular oriunda da rua, mas que pode estar em qualquer lugar. Nossa intenção é justamente mostrar que não há um único espaço apropriado: pode estar no teatro, na TV ou na rua”.

O Bumba-meu-boi, concebido dentro do contexto dos festejos e agradecimentos religiosos à figura de São João, é tradicional nos estados do norte e do nordeste do país, como Rio Grande do Norte, Amazonas, Bahia e Maranhão. A encenação traz a narrativa de uma lenda popular da cultura negra, segundo a qual o escravo Pai Francisco mata o boi do patrão para satisfazer os desejos da mulher grávida.

Com origens que remontam ao século XVIII, os grandes encontros para brincar e dançar essa história seguem um calendário específico. No sábado de aleluia, ao fim da quaresma, marca-se o nascimento do boi. Em junho, durante as festas juninas, ocorre o batismo. E para encerrar o ciclo, simboliza-se a morte do animal, no fim da primavera. “É um ritual muito importante pois representa a relação com o tempo, o início e o fim dos ciclos”, diz Tião. Também simboliza “a esperança do ano vindouro e o renascimento de coisas novas em nós mesmos”, ensina.

O diretor-artístico do Grupo Cupuaçu foi introduzido à cultura do Bumba-meu-boi ainda quando criança, na cidade de Cururupu, nordeste do Maranhão. “Meus pais e avós eram de tradição de Bumba-meu-boi e tambor de crioulo. Desde antes de nascer eu já era dessa família de cantadores”. A vinda para São Paulo se deu em 1980, época em que começava a integrar o grupo de teatro Ventoforte como ator, dançarino, músico e compositor, e quando fundou o Cupuaçu com alunos da sua turma de dança.  

Tião acredita que a cultura popular vem conquistando espaço em ambientes como escolas e universidades. “Queremos desmistificar a ideia de que a cultura popular é uma coisa distante, que não é nossa”, pontua. A estudante de percussão do polo Alvarenga, Caroline Figueiredo, por exemplo, adorou a proposta. Ela nunca tinha visto um espetáculo do boi. “Achei ótimo. Muito criativa essa cultura”, disse após ter brincado e dançado ativamente na encenação. Para ela, o que mais chamou a atenção foram “as cores, o ritmo, a energia e todo mundo junto”.

Pifes de Caruaru

No polo Brooklin, a apresentação de um grupo de senhores vestidos de roupas típicas do nordeste, camisas quadriculadas e calças azuis, vestindo sandálias de couro e chapeu, carrega uma história que começou no sertão alagoano em 1955. Os Pífanos de Caruaru – ou pifes, modo como a pequena flauta de madeira é chamada na linguagem popular – são reconhecidos nacional e internacionalmente graças ao trabalho de preservação da cultura tradicional nordestina.  Diversos artistas da MPB, como Gilberto Gil e Caetano Veloso, se aproximaram e gravaram músicas do grupo.  

Para Junior Caboclo, o integrantes mais jovem da banda, “quem assistiu a apresentação de hoje teve uma verdadeira aula de história do Brasil”. E explica: “É uma banda que está com 88 anos e passou por várias histórias políticas do País”. Uma delas é o encontro que Sebastião Biano, um dos fundadores, que ainda toca e se apresenta com 94 anos de idade, teve com o famoso e temido cangaceiro Lampião. “Todo mundo tinha muito medo daquela figura. Ele chegou pra gente e falou: ´toquem aí esses pífanos´”, recorda-se o senhor.

Junior, que adentrou ao grupo em 2008 meio por acaso por conta de uma pesquisa que estava realizando sobre a cultura dos tocadores de pífano, explica que o repertório da apresentação consistiu em “músicas tradicionais de bandas de pífano, como samba matuto, baião, forró, frevo e baiano”. “A molecada prestou bastante atenção”, observa o tocador de zabumba e vocalista João Biano.

O coordenador artístico-pedagógico do Guri Ricardo Appezzato destaca  a importância de inserir a cultura popular em uma série de concertos como o Horizontes Musicais. “Grandes manifestações, como o Boi, por exemplo, fazem parte da cultura de nosso País, mas em muitos casos são de total desconhecimento do grande público”, analisa.

Apezzato explica que a proposta foi proporcionar apresentações em espaços abertos, que se aproximassem ao máximo do que é feito tradicionalmente nas festas. E adianta que para o ano que vem pretende continuar nessa linha. “Penso em chamar uma escola de samba, para mostrar a essência dessa manifestação, e um grupo de maracatu”, finaliza.