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Confira o bate-papo com o professor da EMESP Edu Ribeiro

28 de fevereiro de 2014

O CD Song For Maura, do Trio Corrente, formado pelo professor de bateria da EMESP e coordenador da área popular Edu Ribeiro (bateria), Fabio Torres (piano) e Paulo Paulelli (baixo), venceu a 56º edição do Grammy pela categoria de melhor álbum latino de jazz. O álbum foi gravado em parceria com o saxofonista cubano radicado nos EUA, Paquito DRivera.

Único representante brasileiro entre os indicados ao Grammy deste ano, o álbum do trio concorreu com La Noche Más Larga de Buika, Yo de Roberto Fonseca, Eggün de Omar Sosa e Latin Jazz-Jazz Latin de Wayne Wallace Latin Jazz Quintet.

Confira um pouco mais sobre a carreira do professor Edu Ribeiro e o Trio Corrente:

Quando você passou a se interessar por música?

Eu comecei a me interessar por música desde muito pequeno. Meu pai tinha uma orquestra de baile [Stagium10], em Florianópolis (SC), e toda semana juntavam 13 músicos para ensaiar em minha casa. Nós tínhamos uma edícula em que brincávamos nos dias de chuva, pois sempre tinham instrumentos em exposição. Quando eu tinha uns seis anos, meus irmãos mais velhos começaram a tocar. Um começou com a guitarra, o outro contrabaixo e sobrou a bateria para mim. Formamos um grupo e passamos a ensaiar regularmente, quase todos os dias. Após o falecimento da minha mãe, passamos a frequentar os bailes com meu pai. Eu tocava quatro ou cinco músicas por baile, até o momento em que assumi de vez e passei a tocar bateria oficialmente no grupo. A partir deste momento nunca mais me desliguei disso. 

Você é formado em música pela Unicamp. Por que decidiu cursar uma faculdade?

Eu queria sair da cidade, viver novas coisas e me apeguei em fazer uma faculdade fora de Florianópolis. Aos 17 anos, resolvi ir para Campinas [interior de São Paulo] para estudar música popular, pois tinha passado na Unicamp. Eu dividia apartamento com o Chico Saraiva, que é um violonista e compositor super conhecido. Nós estudávamos juntos em Florianópolis desde a 5ª série e, mais tarde, prestamos o vestibular para a Unicamp e mudamos para Campinas. No final de 1995, acabei mudando de vez para São Paulo, pois já fazia uns trabalhos por aqui e o Chico também. Nós chegamos a ter um grupo juntos, formado dentro da Unicamp, o Trio Água [Edu Ribeiro, Chico Saraiva e José Nigro], lançamos até um disco. Esse foi o primeiro contato que tive com a música instrumental. 

Como foi a mudança para São Paulo? 

Na primeira semana que mudei para São Paulo, conheci o Sizão Machado. Nós fizemos uma gravação juntos e ele me colocou para trabalhar com todo mundo depois disso. Foi uma honra para mim, pois era uma pessoa que ouvia desde criança e me abriu muitas portas. Além do Sizão, uma pessoa que me ajudou muito foi a Lilian Carmona, que foi minha professora na Unicamp e a quem eu devo toda minha formação como baterista, tenho total gratidão a ela.

Com quais artistas você teve a oportunidade de trabalhar?

Uma das coisas mais importantes de música instrumental que eu fiz foi um trio com o Yamandu Costa. Ele tinha acabado de chegar em São Paulo, era um garotão. Nos conhecemos através do Sizão e do Capucho, acho que eles moravam no mesmo prédio. Um dia o Yamandu disse que tinha umas músicas e queria fazer um trio. Então formamos um com o Thiago Espírito Santo e ensaiávamos até na minha casa. Depois conheci o Chico Pinheiro, gravei todos os discos dele, fizemos muitas coisas no exterior e até hoje trabalho com ele. Tive a oportunidade de conhecer também a Lea Freire, que é uma pessoa no qual tenho um grupo hoje [Vento em Madeira], além do Daniel D’Alcântara, que também trabalhamos juntos e gravamos um disco juntos.

Quais grupos você tem hoje?

Atualmente tenho dois grupos bem atuantes: o Trio Corrente e o Vento em Madeira. Tem um trio que faço de vez em quanto com o Daniel D’Alcântara e o Bruno Migotto, além de fazer alguns trabalhos do disco que lancei em 2006 [Já tô te esperando], que tem o Toninho Ferragutti, Chico Pinheiro, entre outros.

Além de músico, você também é professor. Por que decidiu lecionar?

Sempre tive alguns alunos particulares de bateria. Em 2006, recebi o convite para dar aula de bateria, prática de conjunto e percussão na Faculdade Santa Marcelina, em Perdizes, no qual estou até hoje. Já em 2009, entrei na EMESP Tom Jobim para dar aula de bateria e prática de conjunto, onde também estou até hoje. Acho interessante essa questão de você traçar um plano para o aluno, é uma experiência muito legal colocar isso em prática. Acredito que você não forma ninguém, apenas ajuda o aluno a se desenvolver. Se o aluno não quiser, ele não vai a lugar nenhum. Agora, se ele quiser e você ajudar, é uma grande conquista de ambos. Quando você é professor de alguém, precisa jogar fora todos os seus gostos, o seu ego e olhar para o aluno e ver onde ele pode render.

Um dos seus grupos, o Trio Corrente, em parceria com o Paquito D"Rivera, acabou de ganhar o Grammy [maior prêmio da indústria fonográfica dos Estados Unidos] de melhor álbum de jazz latino. Como surgiu o Trio?

O Trio Corrente surgiu em 1998. Na época, conheci o Fábio [Torres] e o Paulo Paulelli. Eu e o Fábio tocávamos toda semana com o Renato Consorte, um guitarrista daqui de São Paulo. Teve uma época em que passei a tocar em uma casa noturna chamada Garoa junto com o Paulelli e o Marcos Teixeira na guitarra. Em algum momento o Marcos disse que não poderia mais tocar, pois estava viajando muito em turnê com a Gal Costa e não ia dar certo. Foi aí que chamamos o Fábio, passamos a tocar toda semana e a ter intimidade tocando juntos.

Quantos álbuns vocês gravaram?

Em 2005, nós gravamos nosso primeiro disco, chamado Corrente. A partir daí passamos a trabalhar com esse trio e divulgar nosso álbum no Sesc, além de festivais pelo Brasil e pelo exterior. Em seguida, em 2011, lançamos o nosso segundo disco, o Vol.2, que conseguimos lançar muito bem aqui e no exterior. Logo depois, gravamos o disco em parceria com o Paquito D’Rivera, o Song for Maura.     

Como surgiu essa parceria com o Paquito D"Rivera?

O Paquito tinha feito shows com a Rosa Passos, então acabou conhecendo o Fábio e o Paulelli. Mas, no momento em que o convidamos para tocar conosco, ele não ligou o “lé com cré”. Em um primeiro momento elutou um pouco, porque disse que tinha tido experiências muito ruins com desconhecidos e queria viajar com o grupo dele. Isso aconteceu em um Festival de Jazz e Blues de Guaramiranga, no Ceará. Depois, o pianista do Paquito, o Alex Brown, disse para ele que tinha nosso álbum e gostava do nosso trabalho. Em seguida o Paquito nos ligou e disse que estava feito. Quem fez essa ponte toda foi o nosso produtor, o Jacques Figueira.  

Quando decidiram gravar o álbum?

O Paquito veio ao Brasil, fizemos dois shows e a química foi muito boa. Ele pegou um pouco dos arranjos que enviamos para ele, tocamos um pouco das coisas dele e deu super certo. Depois ele nos convidou para fazer shows no Uruguai, Europa, até que nasceu a ideia de gravar um disco. Em 2012 gravamos o disco, que saiu em 2013. Nós gravamos o álbum em três dias e ele saiu só nos Estados Unidos. Vamos lançar no Brasil neste mês de fevereiro.

De quem são as composições de Song for Maura?

Tem composição do Fábio, música minha, arranjo do Paulelli, música do Paquito, arranjos do Fábio, tudo coisa nossa. Agora, tem muitos arranjos para standards de música brasileira, que é um campo super vasto e fértil. Gravamos Pixinguinha, música do Guinga, entre outros. Tudo do jeito que a gente faz um pouco com o Trio, que é pegar esses standards e fazer um arranjo com uma cara nossa. Isso se soma ao Paquito, que trouxe umas músicas dele, como Song for Maura, por exemplo. Foi um clima super jazzístico de gravação, nós não ensaiamos, foi muito espontâneo.

Os únicos brasileiros a levarem o gramofone dourado para casa. Qual foi a sensação ao ouvir o nome do Trio Corrente?

Ficamos muito contentes só com a indicação. Nesse mesmo disco, o Paquito concorreu na categoria de melhor solo improvisado.  Nós ganhamos como melhor disco de jazz latino. É super gratificante, pois é uma categoria que entre os brasileiros que ganharam, se eu não me engano, foi o Tom Jobim, com o disco Antônio Brasileiro. Só de você ser indicado já é um grande prêmio, mas digo que foi uma surpresa muito grande, pois sinceramente não esperava por isso. Fizemos uma viagem familiar, todos levaram a família e vamos nos divertir um pouco. Eu não fui desacreditado, mas achava que só aquilo já estava ótimo. Acredito que temos que aproveitar este momento e fazer com que de alguma maneira a música chegue ao ouvido das pessoas, que chegue à cabeça das pessoas de uma forma boa. Acho que isso vai trazer ótimos frutos para a gente.

Quais os planos do Trio? Vocês devem fazer uma turnê este ano?

Conversamos muito sobre isso e esse ano pretendemos gravar um novo disco, que aliás já estamos preparando. O que a gente também quer fazer é uma boa turnê de lançamento do Song for Maura, já que aqui no Brasil fizemos apenas um show em Ilhabela e outro no Rio de Janeiro. A turnê deve passar por São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro e Curitiba. 

Reportagem: Aline Schons