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Viagem a um Brasil profundo

17 de dezembro de 2012

Coral Infanto-Juvenil do Guri viajou mais de 1.600 km para apresentações em Brasília e Bom Jesus da Lapa, duas cidades representativas para a cultura do País

“Vamos lá, já está terminando!”, avisa energicamente a regente oficial do coro, Giuliana Frozoni durante um dos vários ensaios. Os integrantes do grupo, todos adolescentes, estão visivelmente cansados. Afora todo o repertório, repetiram dezenas de vezes uma peça de alta complexidade chamada Pato Rítmico, que envolve coreografias, sons tirados de um pato de brinquedo, diálogos, instrumento de percussão, entre outros elementos.

O rigor do treinamento tem sido um fator marcante no Coral Infanto-Juvenil do Guri no intuito de extrair o máximo do potencial dos jovens músicos. Durante a turnê pela série Guri nas Estradas, realizada entre os dias 4 e 11 de dezembro, com apresentações em Brasília e Bom Jesus da Lapa, não foi diferente. O resultado foram três apresentações de alto nível, capazes de atrair a atenção do público do início ao fim, além de despertar diferentes tipos de emoções, expressas nos rostos dos espectadores.

O grupo de canto, formado por jovens entre 14 e 20 anos, vem numa toada intensa de ensaios e apresentações nos últimos meses do ano. Participaram da gravação de um programa especial da TV Cultura dedicado ao Programa Guri (ver matéria), realizaram a viagem ao cerrado e sertão, e na semana antes do Natal estão em estúdio produzindo um disco com o melhor do repertório de 2012.

“Está todo mundo muito empolgado. Acho que será o ano mais marcante para a gente”, conta Jaqueline Peixinho, 18. “Foi uma temporada muito bonita, que está sendo finalizada com atividades bastante especiais para o grupo”, afirma Giuliana Frozoni, regente e gestora artístico-pedagógica do Guri.

Nos monumentos de Niemeyer

O primeiro ponto de parada foi Brasília, capital federal do País, centro de decisões políticas e acontecimentos históricos, além de símbolo do planejamento urbano e da arquitetura moderna. No mesmo dia em que os guris realizaram um passeio guiado pela cidade, o Brasil recebeu a notícia da morte do arquiteto Oscar Niemeyer, 104, criador dos principais monumentos da região.

Para Fernanda Maiero, 15, a visita foi importante “porque na escola a gente só aprende o básico, estar aqui é bem diferente”. Além disso, pensa que “é muito legal da parte do Guri Santa Marcelina ter a iniciativa de levar crianças e adolescentes a lugares distantes para aprender sobre a cultura do País”.  

A primeira apresentação do grupo foi realizada no dia 5, no prédio do Ministério da Cultura. Foi uma espécie de “Flash Mob” (apresentação não-programada organizada em espaço público). Ao descerem ao hall de entrada após o término do expediente, funcionários se depararam com os guris soltando a voz. A intenção ali era anunciar o concerto do dia seguinte, mas também apresentar a qualidade do trabalho a interlocutores da Santa Marcelina Cultura no Minc.

O concerto principal na capital ocorreu no Santuário Dom Bosco, um dos mais conhecidos da cidade. Pouco depois do almoço, meninos e meninas chegaram para ensaiar. Apreciaram rapidamente a beleza da arquitetura da paróquia, marcada por vitrais azuis e um grande lustre pendurado ao centro, e logo começaram a passar o som sob as coordenadas de Giuliana. “Colem o ouvido do outro lado”, pedia a maestrina. “Não estou ouvindo o que veio do meio”, dizia um aluno. “Sim, por isso vocês têm que olhar para mim”, indicava firmemente a líder, evitando a perda do foco.

Depois de tanto treino, o espetáculo se desenvolveu ao longo de quase uma hora e meia, com direito a bis. A acústica da igreja e o ambiente voltado à introspecção eram propícios a um estado de plena atenção por parte dos ouvintes.

Após o término, Beatriz de Godoi Lima, 18, estava bastante animada e disse que “foi gratificante saber que o Programa foi bem representado”. Ao lado dela, sentada no ônibus que ia em direção ao hotel, Maryanna Ribeiro, 18, dizia que sentiu o grupo um pouco tenso durante o show. “Acho que a gente ficou tão preocupada em fazer tudo tão perfeito, tão direito, que acabamos errando”, disse. Esse é o último ano da garota no grupo devido ao limite de idade e também aos planos de vida. Ela revela que pretende começar carreira autoral. “Vou me jogar na música”.

Bom Jesus, canto e religiosidade popular

A ideia inicial de levar o coro a Bom Jesus da Lapa, uma cidade de 62 mil habitantes (Censo 2010) no sertão da Bahia, conhecida nacionalmente por suas grandes festas religiosas, foi de Giuliana. “É um local onde muitos dos nossos alunos poderão identificar suas raízes”, observa. “Trata-se de uma realidade diferente da que estão acostumados por ser uma cidade pequena e isso gera bastante curiosidade. Mas ao mesmo tempo é uma viagem que visa resgatar aspectos culturais que possuem relação com a história dessas crianças e adolescentes”, explica.

De fato, boa parte dos estudantes do projeto tem familiares próximos nas regiões norte e nordeste do País. É o caso de Jainne de Moura, 18, nascida no estado do Piauí, onde morou durante um tempo durante a infância. Para ela, a cidade do sertão baiano lembrou bastante o tipo de vida que teve quando criança. Além disso, o fato de a turnê ter promovido o contato com espaços religiosos foi bastante significativo.  

A primeira vez que a gestora do Guri esteve na cidade da Lapa foi em 2004, com vistas a iniciar um trabalho de formação litúrgico-musical a convite da diocese de Bom Jesus da Lapa. A partir do envolvimento com a comunidade local e da observação das práticas e rituais dos peregrinos religiosos, avaliou que seria importante fazer um registro dessa realidade. Iniciou então um processo de levantamento de dados que resultaria em uma pesquisa de mestrado, recém concluído na PUC-SP, enfocando os cantos populares das romarias, também conhecidos como benditos.

Entre tantas idas e vindas, Giuliana já tem intimidade com a cidade, conhece as principais figuras do local. Uma das amizades mais fortes que construiu é com o padre Cristóvão, polonês que veio para o Brasil há mais de vinte anos para estudar teologia e que ajudou a desenvolver um trabalho de canto litúrgico na comunidade.  

Durante uma oficina de canto que professores do Guri deram a crianças de periferia atendidas pela Pastoral da Criança, o padre expressou algumas palavras a respeito da apresentação do Coral. “Certamente, o que vocês vão cantar vai acrescentar muito a Bom Jesus da Lapa e aos nossos meninos e meninas cantores da vida. Eles poderão aprender um pouco mais sobre música, que de certa forma, dá sentido à nossa existência”.

Em uma conversa próximo ao Santuário, em uma tarde ensolarada e quente, Cristóvão detalhou as contribuições que o Guri traz ao ambiente sociocultural de Bom Jesus. Diversidade de atividades, exemplo de estrutura e profissionalismo são os três pontos que ele ressaltou. No entanto, acredita que a população e até membros da comunidade religiosa “poderiam ter aproveitado melhor a riqueza do que foi apresentado”.

Apesar de ser um município aparentemente pacato, Bom Jesus da Lapa apresenta problemas estruturais como: violência urbana, tráfico e consumo de drogas, falta de fiscalização de trânsito, falta de investimento à cultura, entre outros, segundo relatos de moradores. O comerciante local George Cardoso, 26, cidadão lapense de nascimento e criação, diz que “um concerto como esse é coisa rara aqui”. “Só o que tem são essas músicas de micareta, em alto-falante. E o pior é que o povo gosta, quer só festa, encher a cara, fazer bagunça. Não tem um cinema, um teatro. O governo não quer nem saber”, lamenta.

Um dia antes do concerto, Giuliana esteve na Rádio Bom Jesus da Lapa, que atua há trinta anos atendendo dezenas de cidades do oeste baiano, para conceder entrevista ao vivo referente à passagem do Coral pela cidade. Estimulada pelo locutor, fez uma provocação: “O que estamos fazendo pela cultura de Bom Jesus da Lapa? Esse é o recado que devemos dar aos prefeitos e vereadores”. E acrescentou: “Por que não ter um polo irmão do Guri na cidade?”.

Antes que qualquer passo adiante no sentido de parcerias se concretize, o que ficou da apresentação foram impressões e emoções bastante positivas. No fim do concerto, dentro da mística gruta do Santuário de Bom Jesus da Lapa, descoberta em 1691 pelo ermitão português Francisco de Mendonça Mar, a comoção era generalizada, entre o público e, principalmente, entre os integrantes do coro. “Foi muito especial para a gente, é até difícil descrever”, conclui Jainne.

Texto: Pedro Martins / Fotos: Roberta Borges