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Entrevista com irmã Rosane

09 de agosto de 2019

Em um abrigo para idosos, um senhor estendeu os braços e disse: “Estou no final da minha vida, e minhas mãos estão vazias”. Ele falava para uma família que estava ali para ajudar, e olhou para as crianças. “Não tenho nada para apresentar, não deixo nada porque não construí nada. Mas vocês são crianças, são muito jovens. Não deixem a vida passar sem fazer algo de significativo”.

Muitos anos mais tarde, aquelas palavras ainda repercutem em uma das crianças. “Aquilo me tocou profundamente”, lembra Rosane Ghedin. “O que eu poderia fazer que não passasse?”

Com o celular e uma cuia de chimarrão sobre a mesa, irmã Rosane elabora suas respostas a partir de histórias e lembranças. Ao recordar o senhor no abrigo de idosos, ela explica não apenas o momento que a fez optar por uma vida consagrada, mas também o que move seu trabalho e sua vida.

“A decisão de doar minha vida totalmente ao serviço das pessoas foi pensar no que não passa. Tudo na vida passa, todos nós vamos passar fisicamente. Eu decidi doar minha vida para aquilo que é eterno: o amor”.

Diretora presidente da Santa Marcelina Cultura desde 2009, irmã Rosane Ghedin é também diretora da organização social de saúde Santa Marcelina desde o ano de 1998. As organizações sociais são responsáveis pela gestão, em parceria com o Governo do Estado de São Paulo, do Guri na Capital e Grande São Paulo, da Escola de Música do Estado de São Paulo – Emesp Tom Jobim, e do Theatro São Pedro, além de diversos hospitais e centros de atendimento médico espalhados por São Paulo.

Em sua sala no prédio administrativo do Hospital Santa Marcelina de Itaquera, ela falou sobre sua história, seu cotidiano, e sobre a missão das irmãs Marcelinas.

De enfermeira a executiva
Formada em enfermagem, irmã Rosane trabalhou por muitos anos nos hospitais da Santa Marcelina Saúde. Como enfermeira, atuou em pronto socorros e UTIs, atendendo a emergências, urgências e resgates. Especializou-se transplantes, e fez parte da equipe que implementou o transplante de medula óssea no hospital, há 20 anos. Ela lembra com carinho do contato com pacientes, que até hoje a procuram para agradecer.

Recentemente, ela conta, foi abordada por um dos seguranças ao entrar no Palácio do Governo. “Você é a irmã Rosane, né? Eu queria te agradecer e te dar um abraço. Fui paciente do transplante de medula e você cuidou de mim”.

“Foi emocionante”, ela diz. “E realmente a gente ficava muito junto dos pacientes, dia e noite, porque o transplante de medula é muito exigente, é um cuidado individual. Então a gente fica emocionada. As pessoas vão realizar seus sonhos a partir da vida que elas ganharam, da possibilidade de viver mais, com mais qualidade. Você pode ficar muito tempo sem encontrar aquelas pessoas, mas o seu trabalho fica impresso na vida delas. É muito gratificante”.

A paixão com que fala de seus tempos de assistência dá lugar a um temperamento mais sóbrio, racional, quando fala de seu trabalho na gestão. “Na administração é muito mais solitário. Eu sofri bastante para me adaptar à vida administrativa. Ela é um pouco sem afeto, eu diria assim”, ela fala, tocando a tela do celular sobre a mesa. “Tem alguns sofrimentos, algumas dores que a gente tem que assumir sozinhas. Muitas vezes o que a gente precisa fazer não é aquilo que a gente sente. Então você tem uma certa luta interna para manter os direcionamentos, a estratégia, para chegar ao objetivo que está sendo construído”.

“Tive que fazer uma renúncia muito grande quando fui chamada a assumir a administração do hospital. Levei alguns anos para me alinhar ao perfil administrativo. Estou há quase 12 anos na administração, tentando cumprir meu papel da melhor forma que posso junto com as pessoas que compõem a equipe. Tínhamos o objetivo de recuperar a situação financeira da instituição, então fizemos um plano e o cumprimos. Isso exigiu de nós um aperfeiçoamento de gestão”.

Trabalho e fraternidade
“O chimarrão é uma tradição de família”, ela diz, quando fala de sua rotina. “O chimarrão é o café da manhã, que dá o ânimo do dia, faz a gente acordar”, ri. Irmã Rosane acorda cedo, pouco antes das 5 horas da manhã – na casa compartilhada das irmãs, ela é a primeira a se levantar, pois é encarregada de fazer o café para as colegas. “É uma coisa que gosto, eu assumi fazer isso toda manhã para a comunidade”. Atualmente, 30 irmãs dividem uma casa em um anexo do hospital em Itaquera.

Às 5 horas elas se reúnem para a Liturgia das Horas, a oração que abre o dia. Depois, dedicam-se a pelo menos 30 minutos de meditação, então participam da missa. Cumpridos os rituais da manhã, elas tomam café, e cada uma segue para suas atribuições. Depois de cuidar das tarefas triviais de casa – “Coisas que todo mundo faz, como arrumar a cama, passar roupa, deixar o banheiro arrumadinho” –, irmã Rosane caminha no parque do Carmo quando pode, então segue para o escritório, onde geralmente é a primeira a chegar. Lá, começa a rotina intensa de reuniões, que costuma durar até as 20h, 21h. Quando sai mais cedo, ela vai para a comunidade de jovens, ali mesmo em Itaquera, onde costuma ficar até as 22h.

A comunidade de jovens se chama Anawin, e foi criada pela irmã Rosane em 1998, depois de observar jovens da região sentados na calçada, desocupados. “Muitos jovens estavam na dependência química por falta de orientação, ou por falta de casa – não tanto uma casa física, mas uma casa afetiva”, ela conta. “Eu pensava em fazer alguma coisa por eles, mas percebi que precisava de algo para mim também. Nessa convivência aprendi muito. Aprendi que precisava ser mais humana, precisava escutar mais, ser mais humilde. Porque eu vi num dependente químico virtudes, valores e qualidades que eu não tinha”.

“Eles viveram experiências tão dolorosas. O dependente químico vive uma dor. Um dependente químico, um suicida, um depressivo – eles têm uma dor e querem se livrar dessa dor, mas não sabem como. É uma dor que povoa o coração e a vida dessas pessoas. Estar junto, viver junto em fraternidade, na partilha – são coisas que fazem a gente superar nossa dor e sair daquele estado. Então o Anawin me ensinou isso. É um lugar em que a gente se permite tudo. A gente se permite sentir, chorar, contar a dor que sente. Porque todos nós sofremos, e eu percebi que a dor é igual para todos”.

O motivo
Existe um fio condutor naquilo que as irmãs Marcelina realizam, uma razão que move a ação. Na terminologia cristã, esse motivo é o carisma, um dom espiritual oferecido a indivíduos ou a grupos. A palavra vem do grego, e significa presente, graça, favor.

“O carisma é o dom maior”, explica a irmã Rosane. “É aquilo que nos inspira, e está como pano de fundo para tudo que fazemos. Nós somos chamadas a ser, não a fazer. O fazer é um meio pelo qual podemos dizer aquilo que nos inspira”.

Mas como isso se relaciona com o mundo atual? Como isso pode ser aplicado a uma instituição que emprega colaboradores, que presta serviços, que transita no mundo secular?

“Lá no princípio, uma pessoa visionária viu a necessidade de reparar os danos causados pela sociedade, por meio da formação e da educação”. Ela não menciona seu nome, mas fala do beato Luigi Biraghi. Foi ele quem criou, com a ajuda da madre Marina Videmari, o Instituto Santa Marcelina, em 1838, na Itália. Como protetora, foi escolhida a santa que, com a morte dos pais, assumiu a criação e educação de seus irmãos mais novos. Desde o princípio, a congregação tinha a visão voltada para o futuro, para a evolução: formar e educar jovens para transformar a sociedade, aliando o espírito cristão à ciência de seu tempo.

“Todas as atividades que nós fazemos hoje são consequência – ou melhor –, são sequência dessa missão”, continua a irmã Rosane. “Precisamos enxergar uma oportunidade de formar. Mas não é entregando algo pronto para essa pessoa. Nossa metodologia é de formar estando junto, em um aprendizado constante de quem ensina e de quem aprende. Por isso, a instituição tem um sentido de família. Nós trabalhamos juntos, vivemos juntos com as pessoas, numa relação muito estreita”.

A instituição e o mundo
A Santa Marcelina Cultura é uma instituição católica, mas atua em um país religiosamente diverso. Como a instituição pode incluir colaboradores e alunos evangélicos, espíritas, umbandistas, ou de qualquer outra fé?

“Os valores cristãos são o que nos impulsionam, o que não significa que o que fazemos é voltado só para quem tem a nossa crença”, conta a irmã. “E o valor cristão é o que nos faz abraçar todo credo, toda situação, todo tipo de pessoa, todo tipo de escolha. Não existe uma lei que nos proíba de discriminar alguém. O que existe é um valor que trazemos impresso em nós mesmos: não discriminar, abraçar todas as pessoas em quaisquer situações que elas estejam”.

“O maior valor cristão é o amor. Então o amor faz com que a gente não discrimine. É um exercício humano que toda pessoa deve fazer. E na família é assim, nós nunca conseguimos tirar alguém da nossa família por ela pensar diferente da gente, independentemente das suas escolhas”.

Música para formar pessoas
Depois de anos se dedicando à assistência e mais tarde como administradora dos hospitais, em 2009 a irmã Rosane foi convidada pelo Instituto Santa Marcelina a assumir a Santa Marcelina Cultura. “Eu fui surpreendida”, ela lembra, “Jamais pensei que isso fosse fazer parte da minha vida, que pudesse ser incluído na missão institucional. Mas à medida que o tempo foi passando, eu percebi que tinha tudo a ver com a nossa missão, com aquilo que nós sentimos, fazemos. Acho que a música é um caminho de formação, é um meio de a gente educar e formar”.

Apesar de sempre gostar muito de ouvir e de ter a música como parte de sua rotina, ela conta que a gestão cultural e o ensino de música acabaram proporcionando uma nova dimensão da vida para ela. “Eu me encantei, me apaixonei. Tenho me esforçado para aprender cada vez mais, para aproveitar todas as coisas boas que os programas podem nos proporcionar. E essa experiência somou muito também na área da gestão, aprendemos e compartilhamos muitos direcionamentos e estratégias. Temos que aproveitar o que a música nos dá de melhor”.

Com a entrevista já quase no final, a irmã Rosane aperta a tampa da garrafa térmica e enche a cuia de chimarrão. Ela reflete sobre o papel do professor – principal atividade da Santa Marcelina Cultura, exercida pela grande maioria dos colaboradores da instituição.

“Olha, eu vejo a missão do formador, do educador, do professor a partir de uma experiência pessoal minha. Quando eu trabalhava na assistência, lidava muito com pessoas em uma fase crítica, quando elas percebem a finitude da vida. Fui privilegiada por poder ouvir e carregar os segredos de pessoas no fim de suas vidas – aquilo que elas queriam dizer para pessoas que foram importantes em suas vidas, como pais, professores, mas não puderam”.

Ela pondera sobre as dificuldades inerentes à profissão. “Às vezes a gente tem a impressão de que nosso trabalho não tem sentido, mas a formação é como uma semeadura. Quando você joga a semente, você não vê o resultado imediato – vem o frio, a geleira, vem o sol, a primavera, e é aí que a semente começa a brotar. É como se o ensinamento ficasse incubado em nós, para florescer na época certa”.

“E convivendo com pessoas no fim de suas vidas eu percebi como o papel do professor era importante. Como as pessoas valorizam os pequenos gestos – aquela vez que o professor o ajudou quando queria desistir, quando pegou na sua mão, quando sentou ao seu lado. Eu carrego comigo o segredo de algumas pessoas, e sei que muitas delas, se pudessem, voltariam para agradecer seus professores, dizer que valeu a pena”.