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Arquivo de março de 2018

Anton Bruckner e Heitor Villa-Lobos

Postado por marina em 09/mar/2018 - Sem Comentários

A Orquestra Jovem do Estado realiza a abertura de sua temporada com dois concertos especiais em março. O primeiro é no dia 10, às 16h, no Teatro Municipal Paulo Machado de Carvalho, em São Caetano do Sul, com entrada gratuita. O outro é na Sala São Paulo, também às 16h, com ingressos a R$ 30 e R$ 15 (meia). Sob regência do maestro Claudio Cruz, o grupo vai interpretar a Sinfonia nº 4, Romântica, de Anton Bruckner, e Martírio dos Insetos, de Heitor Villa-Lobos.

Leia abaixo os comentários do professor da EMESP Tom Jobim, Hermes Jacchieri, sobre o repertório:

Anton Bruckner (1824 -1896), Sinfonia nº4 “Romântica”

A quarta sinfonia teve a sua estreia em 1881 e foi a primeira obra de Anton Bruckner a obter sucesso quando o compositor já contava 57 anos. O título “Romântica” se refere a concepção do romance medieval e tem influência direta das óperas Siegfried e Lohengrin de Wagner.

Bruckner, sozinho, conseguiu criar uma nova escola de escrita sinfônica. Alguns classificaram-no como um conservador, alguns como um radical. Realmente ele era uma fusão de ambos. A sua música, embora wagneriana em sua orquestração e em seus enormes desenvolvimentos, possui raízes em estilos mais antigos. Bruckner tomou a Nona Sinfonia de Bheethoven como ponto de partida.

A introdução ao primeiro movimento, começando misteriosamente e escalando lentamente com fragmentos do primeiro tema para a gigantesca declaração completa desse tema, foi assumida por Bruckner; assim como a coda impressionante do primeiro movimento.

O movimento scherzo e lento, com sua alternância de melodias, são modelos para movimentos médios espaçosos de Bruckner, enquanto o final com um grande hino culminante é uma característica de quase todas as sinfônicas do compositor.

Bruckner é o primeiro compositor desde Schubert sobre quem é possível fazer tais generalizações. Suas sinfonias seguiram deliberadamente um padrão, cada um construído sobre as realizações de seus antecessores. Seu estilo melódico e harmônico mudou pouco e teve tanto de Schubert nisso quanto de Wagner. A sua técnica no desenvolvimento e a transformação dos temas, aprendida de Beethoven, Liszt e Wagner, foi insuperável e ele era quase igual a Brahms na arte da variação melódica.

Apesar de sua dívida geral com Beethoven e Wagner, a “Sinfonia Bruckner” é uma concepção única, não só por causa da individualidade de seu espírito e seus materiais, mas ainda mais por causa da originalidade absoluta de seus processos formais.

No início, esses processos pareciam tão estranhos e sem precedentes que foram levados como evidência de pura incompetência. Agora é reconhecido que os métodos estruturais não ortodoxos de Bruckner eram inevitáveis.

Bruckner criou um novo e monumental tipo de organismo sinfônico, que abjurou a continuidade tensa e dinâmica de Beethoven, e a ampla e fluída continuidade de Wagner para expressar algo profundamente diferente de qualquer compositor, algo elementar e metafísico.

Devido à longa duração e a vasta orquestração de grande parte de sua música, a popularidade de Bruckner se beneficiou grandemente da introdução de mídias de reprodução longa e de melhorias na tecnologia de gravação.

Em parte, porque ambos escreveram longas sinfonias e, em parte, por causa das execuções e gravações de Bruno Walter, Bruckner e Mahler, frequentemente mencionados juntos no século XX.

Heitor Villa-Lobos (1887-1959), O Martírio dos Insetos

A peça foi composta entre 1917 e 1925, e é constituída por três movimentos: o primeiro, intitulado “A Cigarra no Inverno”, escrito em 1925, é dedicado a Oscar Borgerth; o segundo, O Vagalume na Claridade, também escrito em 1925, é dedicado a Mariuccia Iacovino; o terceiro, A Mariposa na Luz, escrito em 1917, é dedicado a Mário Caminha.

Trata-se de uma obra de caráter concertante, com um violino solista acompanhado por orquestra sinfônica. O terceiro movimento foi o primeiro a ser apresentado ao público, em 9 de dezembro de 1922, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, contando com a participação de Paulina d’Ambrosio como solista e regência do próprio compositor. Entretanto, somente no ano de 1948, no Rio de Janeiro, ocorreu a primeira apresentação da obra completa, executada pela Orquestra Sinfônica da Rádio Nacional, com Oscar Borgeth como solista e regência de Léo Perachi.

Essa obra é característica da segunda fase da criação de Villa-Lobos; o compositor começa a construir uma sonoridade própria e se distanciar dos parâmetros da fase anterior de influência impressionista. Sua música passa a ter forma e estruturas mais livres, a harmonia se distancia cada vez mais da tonalidade e as texturas passam a se apresentar de forma cada vez mais complexas e em camadas independentes.

A obra é rica em elementos semióticos. Um elemento a ser notado é o uso de trêmulos em diversas passagens. Este recurso pode ser compreendido como a representação da agitação do inseto.

Uma recorrência comum na obra, que podemos levar ao campo da significação, são os saltos de terça menor e seu grande número de aparições, no caso do segundo movimento, pode levar à uma associação com os lampejos de luz, emitidos pelo vagalume.

Outra referência semiótica bem evidente se encontra no terceiro movimento, onde Villa-Lobos delegou ao violino a função de relatar os sons da trajetória de uma mariposa na presença da luz.

Alguns elementos relacionados à significação que também podem ser investigados são: os timbres e trêmulos no primeiro movimento, que podem ser associados ao estridente canto da cigarra; os movimentos de ascensão de descenso de alturas, que podem remeter à ideia de trajetória e movimento; e os efeitos sonoros do violino solista, como glissandos, pizzicatos, harmônicos e o uso de surdina podem ter alguma relação com alguma situação de martírio para os insetos.